vigésimo nono andar
da janela do vigésimo nono andar daquele edifício centrado na metrópole, já era possível notar a interrupção do artista de rua e ouvir seu público gritando em coro pula, pula! e antes de pensar nos clichês da vida, desviou a atenção para o caminhão do corpo de bombeiros cruzando o largo da carioca seguido pelo carro da equipe de reportagem da jornal local do canal de tevê. nesse mesmo canal, alguns anos antes, tentara realizar um sonho antigo e compartilhado por muitos. fora de papagaio de pirata à participante de reality show eliminado na primeira semana, passando por figurante de novela. o máximo que alcançou foi uma entrevista de sete minutos no Faustão, ganhando em seguida seu atestado de óbito no mundo da fama. teve o ímpeto de dar seu último suspiro quando estava no elevador deste mesmo prédio e ninguém o olhou ao menos com um sorriso no canto da boca. e agora um psiquiatra se aproximava pelo corredor, de forma amistosa e eloqüente, tentando persuardi-lo a desistir e voltar. ignorando-o, acendeu um cigarro de filtro amarelo e já não sentiu a aspereza na garganta como de costume. deu algumas tragadas, a mão trêmula, a lágrima ressentida no canto do olho, os olhos apertados. soltou a fumaça pela última vez.
só queria destaque, e desta feita ganhou apenas uma notinha no rodapé da página nove.
só queria destaque, e desta feita ganhou apenas uma notinha no rodapé da página nove.


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